quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O coronel John Adams voltara aos Estados Unidos há apenas um mês, depois de um ano em missão nos Bálcãs. Ele estava em seu escritório no Pentágono quando ouviu uma grande explosão e sentiu tudo tremer. Eram 9h37 do dia 11 de setembro de 2001 e, a apenas cem metros dali, o voo 77 da American Airlines colidia com uma das paredes do prédio. 

"Eu pensei que aquele era o momento em que eu ia morrer", disse Adams, que à época servia como vice-diretor do Escritório de Política Europeia do Departamento de Defesa. 

Aposentado como brigadeiro general, Adams, 57, trabalha hoje como consultor de defesa e relembra, em depoimento à Folha.com, o dia mais marcante de sua vida. 

O ATAQUE - "Estávamos em uma reunião e a maioria das salas no Pentágono tem uma TV ligada o tempo todo no canal de notícias. Nós vimos que um avião havia colidido com a torre norte do World Trade Center [em Nova York] e a nossa primeira suposição foi de um acidente. Mas daí vimos o segundo avião atingir [a torre sul], e sabíamos que um ataque estava ocorrendo. 

Vinte minutos depois, estava em uma reunião com oficiais do Pentágono e um militar sugeriu enviar uma patrulha aérea para proteger o prédio. Menos de um minuto depois, nós fomos atacados. 

A maioria pensou que o Pentágono poderia ser um alvo, mas foi tudo muito rápido. Levou menos de uma hora entre o primeiro ataque e o avião que nos atingiu. 

O impacto causou um grande barulho e um forte tremor. Todos estavam com medo. Eu pensei que aquele era o momento em que eu ia morrer e acho que isso foi o que muitas pessoas pensaram. Eu não fui ferido, eu sobrevivi, fui muito sortudo. 

Nós saímos do prédio, para longe da fumaça e do fogo. Depois de 20 minutos, houve uma explosão maior do que a primeira, provocada pelo vazamento do combustível do avião. Uma parte do prédio cedeu.
 
AJUDA - Assim que desci do prédio, tentei ligar para minha família do celular, mas não conseguia porque o sistema estava congestionado. Meu primeiro contato com minha família foi cerca de três horas depois, entre 12h e 13h. Minha mulher me ligou e foi muito bom ouvir a voz dela, saber que ela estava bem e meus filhos também. 

As pessoas que saíram do prédio se organizaram em pequenos grupos para tentar retornar ao prédio e ver se havia alguém preso. Nós ainda não sabíamos exatamente o que estava acontecendo. Não sabíamos no dia que era a Al Qaeda. Eu já havia ouvido falar dessa rede terrorista anos antes, por outros atentados, mas não imaginava algo neste porte.

Destroços do voo 77 da American Airlines enquanto bombeiros tentam apagar o incêndio no Pentágono causado pela colisão do avião
Meu grupo ficou para ajudar os feridos. Por cerca de seis horas, eu organizava tendas de atendimento e suprimentos médicos e ajudava no cuidado dos pacientes. Eu estava fardado e queria ficar para ajudar. Havia centenas de pessoas lá fazendo a mesma coisa.

Eu não lembro de ter visto partes de corpos, graças a Deus, não queria ficar com essa memória. Mas lembro de ver partes de avião espalhadas em todos os lugares por centenas de metros.

Lá pelas 16h, a unidade de infantaria que guarda a Tumba do Soldado Desconhecido no Cemitério Nacional assumiu nossa tarefa e fomos embora.
 
CAMINHO PRA CASA - Eu vivia a cerca de 24 km do Pentágono. Todas as ruas perto do prédio foram fechadas, havia viaturas de polícia e bombeiros por todos os lados, mas não havia táxis ou ônibus. Eu não tinha carro, então comecei a caminhar rumo à minha casa. Eu andei por cerca de 8 km até uma parte onde o trânsito estava liberado e então peguei um ônibus.

Eu cheguei em casa e vi minha família. Eles estavam muito felizes, foi muito emotivo. Estávamos todos muito aliviados.

Mas o dia não terminou até mais ou menos meia-noite, porque eu queria saber se todas as pessoas com quem eu trabalhava estavam bem [cerca de 20 militares e civis]. Eu liguei e falei com todo mundo.
 
DIA SEGUINTE - No dia seguinte, eu voltei a trabalhar. A maioria voltou, alguns em um escritório diferente. 

Meu escritório foi danificado, mas não destruído. Nós tivemos que limpar tudo, estava uma bagunça. Havia uma fumaça particularmente densa de combustível de avião que cobriu tudo de preto. O cenário era de destruição, tudo estava espalhado. 

Ainda havia fogo e muita fumaça no prédio. Três dias depois, quando caminhava por um dos corredores vi bombeiros por todos os lados. Logo depois, houve uma grande explosão, cerca de 75 m ou cem metros de onde eu estava, e mais uma parte do prédio cedera. 

O fogo queimou por dias com todo aquele combustível do avião.
 
MEMÓRIAS - Algumas coisas ficaram marcadas. Uma é que nós não estávamos preparados para algo deste tipo. Você nunca pode estar completamente preparado para o terrorismo, mas você pode estar pronto para um desastre e nós não estávamos. 

Na primeira hora foi muito desorganizado, foi surpreendente para mim. Quem ajudou foram os bombeiros, que sabiam como ajudar as vítimas e coordenar o atendimento. Na época, era estranho ver aqueles generais todos recebendo ordens de bombeiros. 

Outra coisa que me marcou era que todos participavam e estavam tentando fazer seu melhor. Eles não sabiam exatamente como ajudar, mas estavam lá. Todos estavam muito tristes, mas eram amigáveis. Havia um sentimento de que estávamos juntos e precisávamos permanecer unidos. Foi confortante, inspirador.
A terceira lembrança é que havia muita raiva e as pessoas não sabiam a quem direcionar, mas não ouvi ninguém querendo fazer qualquer coisa que fosse contra a nossa Constituição. Éramos boas pessoas e queríamos passar por aquilo com os nossos princípios intactos.

Há formas de lutar contra o terrorismo que não envolvem invadir outros países. Nós temos que pensar antes de agir, mais do que fizemos na última década." Fonte: FOLHA.COM

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